Hugo Almeida (1952) é jornalista formado pela UFMG (1976) e doutor em Literatura Brasileira pela USP (2005). Escritor com quinze livros editados, entre eles o romance Mil corações solitários (Prêmio Nestlé-1988) e Certos casais (contos, 2021). Participa da antologia de Quando não estávamos distraídos (Editora Sinete, 2023) e organizou o volume de ensaios Osman Lins: o sopro na argila (2004). Neste ano, centenário de nascimento de Osman Lins (1924-1978), a Sinete lança A voz dos sinos, estudo de Almeida sobre o sagrado na obra osmaniana. Vale das ameixas é o segundo romance para adultos do escritor mineiro, que vive em São Paulo desde 1984.
Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br
Confira também: A voz dos sinos e Mil corações solitários
Não dá vontade de parar de ler este Vale das ameixas, de Hugo Almeida. Um rio que corre solto, limpo, estilo impecável, palavras e frases na justa e criativa medida, passagens da mais fina poesia. Impressionante a cultura do autor sobre literatura, filosofia, ciência, história. O professor Harley, ou Timo, polonês naturalizado brasileiro que escapou das guerras na Europa, suas várias mulheres, a espirituosa empregada Benedita e os prováveis filhos (gays?) do protagonista agitam esse vale de múltiplos símbolos. Há um machismo de época filtrado sob as mais deliciosas situações amorosas das quais as amantes são cúmplices-autoras. A solidariedade é o pano de fundo, o sonho de um mundo melhor, um texto religioso-socialista. Hino ao amor, um romance que toca a nossa sensibilidade do começo ao fim.
o escritor hugo almeida tem uma das prosas mais elegantes da literatura brasileira contemporânea, um estilo refinado, eloquente, que aproveita todos os recursos da língua portuguesa para contar histórias cativantes,
neste romance, que você tem em mãos, um homem revisita os territórios do passado: corpos, geografias, devaneios, cenários, um arsenal de provocações e o amparo da segurança,
porque toda lembrança é um prolongamento de um ambiente controlado, ou então é o próprio ecossistema protegendo as crias de qualquer hostilidade:
benditos e malditos os frutos do ventre da memória,
o ancião refaz percursos alojados em algum compartimento do cérebro, os reinterpreta, os revive, muitas vezes, e, finalmente, os escreve,
há tantos filtros, tantas intercorrências, tantos ruídos nestas confissões, que o próprio narrador se dilui diante do extravasamento de uma nova consciência, única e, paradoxalmente, múltipla,
existiram estes vales encravados nos calabouços do tempo, ressurgidos nos escaninhos das reminiscências, analisados nas sinapses dos raciocínios e tornados públicos em um diário íntimo?,
(o leitor precisa acreditar em léa, em núbia, em laura, em éden, em laís, em alzira, em biela, em... em quem?)
porque a verdade destas personagens é a ficção,
é urgente escutar estas mulheres que moldaram e foram moldadas, entre malditos e benditos frutos de todos os vales,
seu timo, conte tudo, como você fez para se dissolver nas tortuosidades do desejo?,
você, leitor, se embrenhe neste labirinto de vestígios: as respostas estão na sua leitura.
A polonaise de Hugo Almeida no “Vale das ameixas”
Percorrendo e sorvendo as delícias do “Vale” das paixões
O romance de Hugo Almeida não subestima a inteligência do leitor ao apresentar as confissões e reflexões do personagem principal, o polonês Harley Tymozwski, apelidado como Timo, ao longo de uma vida como professor de literatura exilado no Brasil.
‘Vale das ameixas’, um mergulho proustiano Segundo romance do jornalista Hugo Almeida surpreende por sua engenhosa estrutura narrativa"
“Vale das Ameixas” é um oásis em meio ao deserto de publicações incensadas pela mídia e ao lixo literário nacional e estrangeiro sacralizados por grande parte de uma crítica seduzida, rendida e vendida aos modismos e rotulações que tanto menoscabam a literatura em nosso país.
Além de abordar os muitos relacionamentos do protagonista com mulheres, a obra dedica espaço considerável a considerações sobre o fundo histórico, sócio-político, sobre o qual se dá a narrativa, que afeta a vida das personagens. O relacionamento com determinadas mulheres, muitas vezes, tem sua origem em algum episódio do fundo histórico.
Como o livro é um composto de recortes, o leitor terá de montar a linearidade que o romance não expõe à leitura. Com muitas menções a figuras artísticas polonesas como Chopin, Grotowski, Wajda, Krajcberg, Polanski, Gombrowicz, Ziembinski, o romance cresce em densidade com essas lembranças e historietas de grandes escritores, músicos, cineastas, artistas plásticos etc. que povoam o livro.
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Baía da Lusofonia
Nesse labirinto narrativo há ainda tão exponencial erudição literária, filosófica, musical, pictórica, biográfica e histórica! Todo esse manancial com a sobreposição identitária de outras obras gigantes da literatura tipo exportação e made in Brazil. Diríamos a fantasmagoria dos nossos gênios assombrando o autor.
Para aqueles e aquelas que buscam, para além de uma leitura sofisticada e prazerosa, um guia de acesso a múltiplo conhecimento, esse livro descortina um universo cultural ímpar.
Em “Vale das ameixas”, a memória aparece menos como recuperação fiel do passado e mais como exercício de reorganização contínua da experiência. O romance se aproxima dessa tradição em que lembrar implica também deformar, reinterpretar e produzir novas camadas de sentido – aproximação que remete, inevitavelmente, à obra de Proust, não por imitação formal, mas pelo entendimento de que o tempo não retorna intacto e de que a escrita funciona como tentativa de apreender seus resíduos.
A linguagem acompanha esse movimento. Hugo Almeida constrói uma prosa que privilegia a observação e a elaboração cuidadosa das cenas, permitindo que o detalhe adquira espessura narrativa. Há atenção constante aos deslocamentos internos dos personagens e ao modo como pequenas lembranças, objetos ou situações cotidianas acionam camadas mais profundas da narrativa. O romance avança sem pressa, sustentado menos por grandes acontecimentos do que pela sedimentação gradual de conflitos e afetos.
Um de seus aspectos mais consistentes está no trabalho com as contradições. Os personagens raramente se deixam reduzir a funções narrativas estáveis; surgem marcados por impulsos opostos, afetos ambíguos e relações que alternam proximidade e distanciamento. O livro parece compreender que a experiência humana não se organiza em linhas coerentes, mas em zonas de atrito e hesitação.
Nesse sentido, “Vale das ameixas” articula forma e matéria de modo coerente. A remissão à memória não resulta em nostalgia, mas em investigação das permanências e fissuras que atravessam o presente. Ao construir essa relação entre linguagem, tempo e contradição, Hugo Almeida produz um romance atento à complexidade dos vínculos e principalmente à instabilidade das lembranças, fazendo da escrita não um instrumento de resolução, mas de aprofundamento da experiência narrada.
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A voz dos sinos - o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins
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