Sergio Fantini (Belo Horizonte/MG, 1961) iniciou sua trajetória literária em 1976, ao editar um fanzine de poesia. Em 2026, o autor completa cinquenta anos dedicados à literatura. Nesse período, lançou mais de vinte livros, realizou eventos e oficinas e participou de antologias. Em 2006, escreveu um conto sobre violência urbana, que deu origem, em 2015, a um romance. Entre 2016 e 2021, publicou mais quatro livros, compondo a sequência que reúne a saga de Silas, o município de Tormenta e uma possível revolução brasileira. Tormenta! é uma extensão da angústia que inspirou aquele conto, assim como Lambe-lambe, Cajila e Graciosa — obras atravessadas por uma dor que não é pequena.
O Narrador, autointitulado Cronista Investigativo, conta histórias sobre o Bairro Novo, onde mora. São casos de violência urbana. Alguns personagens só aparecem em seus episódios e eventuais decorrências; outros vão se tornando protagonistas do romance, cuja trama só se entende no final.
Numa época em que as memórias dos computadores e as lentes das câmeras se voltam para a superfície da cara dos fotógrafos e a matéria da ficção para a vida privada dos próprios autores de forma institucionalizada, há realmente qualquer coisa de herético em teimar realizar aquilo para o que a arte literária sempre se prestou melhor: conhecer o desconhecido, investigar o que está fora da lógica das modas e mercados, instigar o outro, deglutir o quanto possível este mundo, se possível digeri-lo, e apresentar o resultado ao leitor.
Alguns vão dizer que isto é pouco para os tempos em que nos metemos — no que têm muita razão, mas pelo menos aqueles envolvidos com histórias já sabemos: é tudo o que um livro decente pode ousar fazer. Fora disso, faz-se proselitismo e, “sem o perdão da palavra”: caga-se regra.
Na literatura de Fantini sempre houve — e em especial nesse texto — este generoso deslocamento do centro de interesse, mas não se enganem os mais frágeis: na descrição elaborada de tanto desperdício de vida, o autor reafirma um compromisso ativo e fundador com o real: o desejo autêntico de compreender aquilo que somos e fizemos de nós mesmos.
Na utopia deteriorada que amesquinha Tormenta, na atitude fora da lei de sua polícia, na política das organizações impessoais e sociedades anônimas que exploram os habitantes do Bairro Novo, na miséria espiritual de suas igrejas, no “quase omisso” governo central (tão frouxo para o que o implica, tão zeloso de seus lucros e “oportunidades”), há mais do que uma irônica metáfora, contém a substância pestilenta do país que eu e você sonhamos, que supúnhamos alimentar por todos estes anos, mas que deixamos apodrecer em nossos braços. Por trás do bangue-bangue distópico de Sérgio Fantini está o retrato da tragédia brasileira, não uma fotografia de face e de perfil, tirada às pressas numa delegacia, mas algo lá de dentro, daquilo que formou e deformou nossos melhores sonhos e esperanças... e nos transformou nisso: tão iguais em meio a tanta burrice e indiferença.
O pior é isso mesmo. E não passou. A mais pura realidade teima em confirmar, desde logo, a desgraçada fantasia do autor. O tempo não está próximo: ele chegou, meu irmão — está aqui dentro. E é bem como diz o cronista/narrador desse livro terrível: “se o Edgar Allan Poe conhecesse nossa realidade, teria vergonha de suas histórias.”
Não espere redenção, meu amigo. Nem a própria amizade está fora dos juízos. Este livro é uma porrada.
Não quero me adiantar e escrever o que o Dante escreveu na porta do Inferno. Deixa tudo pra lá, mas vejam: o subúrbio é o Bairro Novo, onde os moradores não são ricos como os que habitam a zona sul e nem pobres como os que sobrevivem na zona norte. O município de Tormenta se parece com qualquer Capital comandada pelo capeta e pelo capital. A narrativa se passa numa época indeterminada, mais para um futuro distópico, em que o Governo Central, muito parecido com uma poderosa rede de televisão, é onipresente.
A ficção de Fantini é anticientífica, não lhe interessa a descrição de elementos tecnológicos de que se serve o sistema manipulador; em vez disso, o que temos é a presença muito humana de um narrador-cronista, disposto a “ficar íntimo da alma do subúrbio para compreender melhor a essência do mundo.” Isso me faz pensar num atualizado Lima Barreto, aparentado com os indisciplinados Plínio Marcos e João Antônio, sondando as quebradas desse mundaréu.
O relato feito por Fantini é feito de fúria, com perdão da frase aliterada. Haja tormenta: ele é recheado de horrendos crimes: marido matando mulher, pai cometendo incesto e matando filho, genro transando com a sogra depois de matar a esposa. E tudo isso, se não erro, não é ficção do autor: são fatos extraídos dos jornais desta cidade chamada Belo Horizonte, como poderia também chamar-se Curral dos Mortos.
Quando comecei a fazer estas anotações, sem qualquer pretensão a não ser apoiar minha frágil memória, desconhecia o caminho que estava traçado para mim. Nunca imaginei que me transformaria em um cronista investigativo. Não que minha vida tenha sofrido qualquer transformação radical, mas a organização a que me obriguei alterou a antiga rotina.
No início — e lá se vão muitos anos — pensava em fazer notas que no futuro (hoje?) me ajudassem a lembrar como era o Bairro Novo quando foi criado: nós, seus primeiros moradores; o comércio incipiente; as hortas comunitárias; as brincadeiras das crianças nas ruas de terra; os animais que transitavam livremente por toda parte... Mas a vida mostrou-se, como sói acontecer, mais interessante do que podemos prever. Tornou-se
entediante registrar apenas o que via, como se fora um reles contabilista de episódios burocráticos. Era preciso ir além.
Estes versos, estampados em um antigo folheto anarquista, cuja autoria se perdeu na bruma do tempo, serviram de inspiração para mim:
“Tudo seria impossível
se a dor fosse dor
e o barco, barco.
Nada poderia ser
cumprindo apenas algum destino
preso à aparência das formas.
Tudo seria impossível
se nossos olhos apenas vissem,
não sonhassem,
e nossas mãos tocassem apenas
instrumentos claros,
e não criassem
alta felicidade em harmônios invisíveis
e não criassem possiblidades.”
Apossou-se de mim a necessidade de conhecer melhor meus vizinhos, suas relações com a nova realidade; sua história na Zona de onde vinham; os motivos de sua mudança; o contexto em que nos inseríamos. Eu precisava ficar íntimo da alma do subúrbio para compreender melhor a essência do mundo.
Não creio que tenha chegado muito longe, ou muito fundo. O homem também não. Como gostava de dizer a Arcleu, resumindo o que penso, o homem se transformou numa máquina que, ou melhor, num organismo que se consome a si mesmo. Incorreu também no erro de depositar todas as suas fichas na ideia de vários deuses: criados à sua semelhança, esses deuses não poderiam ser capazes de atender às necessidades de um criador tão limitado.
Os fatos de que me servi para minhas reflexões comprovam isso. Tudo é teimosamente igual, tediosamente repetitivo. A criatividade humana é zero, seja considerando seus indivíduos, seja como espécie. Até para praticar o mal, ela é precária. Daí essas minhas crônicas — o que digo?, estas notas sobre nada serem tão cansativas. A culpa não é minha, entenda. O objeto das investigações é pobre, redundante, parco, magro, seco, macilento, sórdido, esquálido, famélico, patético... Não fosse a obrigação por mim mesmo imposta de registrar meu pensamento, bastaria colecionar recortes de jornais, como o pobre diabo do Elionai fazia. Arcleu, movido apenas por amor, espero, insistia que eu devesse publicar este material. Amor aos livros, à filosofia, à verdade, não sei. Eu resisto. Ele era sedutor e bastante convincente, mas não o suficiente para que eu nos expusesse daquela maneira.
Por essas, guardei este manuscrito e, por outra: após o banho daquela noite de festa, ele, como sempre fazia, se deitou antes de mim; eu fui, como sempre fazia, apagar as luzes da casa. Saindo da sala, estranhei um envelope sobre o televisor, sob seu vaso de sempre-vivas. Envelope comum, sem sobrescrito algum. Não era meu, portanto precisei abri-lo para saber do que se tratava. Três folhas de caderno, manuscritas, iniciadas com “Tormenta, 25 de outubro. Camarada Arcleu” e prosseguindo com algo que me pareceu uma longa conversa entre dois amigos, ou “camaradas”...
Obviamente não li, apesar de ter todo o direito de ler, aquela missiva pessoal. Repus as folhas no envelope e deixei-o onde o encontrara. Fui deitar com a pulga atrás da orelha. As perguntas me tiraram o sono, como se o Vigilante Clayson as fizesse por toda a madrugada: quem teria entregue o envelope a Releido? Por que não registrara destinatário — Arcleu — e o remetente, quem seria...? Meu amigo tinha algum segredo para comigo? “Camarada”... não era assim que ele e Releido andavam se tratando nos últimos tempos? Por que eu não me levantava e, pé ante pé, voltava à sala e cumpria minha tarefa de investigador? Eu teria mesmo direito de o fazer? Afinal, estávamos em minha casa. Não, não, não. Pela manhã ele receberia o envelope, leria e me falaria do que se tratava, se fosse essa sua vontade.
Assim, apaziguado com minha curiosidade a ser satisfeita dali a poucas horas, achei que conseguiria dormir.