Robson Hasmann (1980) nasceu em Guaratinguetá (SP) e atua como integrante da comissão da Festa Literária da cidade. Possui doutorado em Letras, com pesquisas sobre a dramaturgia mexicana, pela FFLCH-USP, universidade na qual realiza estágio pós-doutoral em Literatura Brasileira. Publicou o livro de contos Linhas tracejadas e o romance Erro e surpresa, além de diversos artigos acadêmicos. Sendas para um mundo flutuante é seu primeiro livro de poesia.
Entre a disciplina do karatê e os embates da vida cotidiana, este livro percorre sendas de luta e de linguagem. A força, a simetria e a marcialidade do kata abrem caminho para reflexões sobre injustiças, dores e medos que atravessam a existência. Em diálogo com tradições ibéricas, surgem mistérios, erotismos e ousadias paródicas que revelam uma poesia inaugural — inconsequente, vibrante e desafiadora. Sendas para um mundo flutuante é um convite a atravessar o terreno instável da experiência humana, onde cada gesto e cada palavra se tornam combate e descoberta.
Sendas para um mundo flutuante não é apenas um título poético. É uma chave de leitura para esta obra, em sua totalidade. Pena que eu só descobri isso lá pela terceira vez em que a deixei tomar conta de mim. Quer um conselho?! Não faça o mesmo.
Permita-se sentir suas cores, dobras e curvas; seus cheiros, aclives e declives; seus gostos doces e amargos vindos de registros históricos e de esperanças futuras.
Entregue-se às sensações “sem nome” que muito provavelmente surgirão. Não as questione sobre o quê ou quem são, como apareceram tampouco o que querem de você. E não tente conduzi-las. Apenas doe-se. Posso garantir-lhe que elas saberão as “sendas” do seu corpo pelas quais podem caminhar, até chegarem aonde têm de chegar: no seu âmago.
A cada novo movimento ao qual o livro se abre, as sensações também vão se fazendo novas. Por vezes, cumulativas. Assim, vão nos trazendo os elementos — simbólicos ou não — para cada vez mais perto de nós. Até que, de tanto mexer e remexer, elas conseguem nos fazer questionar: Pode?! Como pode?
Como pode alternar o tom de contemplativo a afirmativo, de eloquente a meditativo, com um jogo de palavras tão econômico e[ste]ticamente?
Como pode uma flor carregar beleza efêmera e resistência? Como ela passa da natureza pulsante ao que “não existe”, do silêncio ao ruído, do gesto ao devaneio?
Como pode a língua transitar tão bem pela ambiguidade do termo que ela mesma criou? Como ela — impudica que é — beija a si mesma abraçando o discurso, só para me confundir?
Como pode fazer meu rosto sangrar como quem desmaia à frente do anjo de concreto? E levitar como quem cria um conto de fadas só para si?
Como pode falar da Terra que guarda tudo, falando da terra que guarda CEPs?
Como pode um amontoado de tijolos, cimento e sabe-se lá mais o quê, tornar-se sujeito histórico — sem CEP?
Como pode tocar um instrumento musical até os dedos mudarem de forma — por meio de letras e não de cifras — e, mesmo assim, conseguir provocar uma vibração compartilhada tão intensa?
Como pode me fazer enxergar que algumas redes não sustentam, só enredam?
Como pode a arte sair do estado da mais pura disciplina, para a desobediência na cena urbana polifônica? Como pode arrancar seu verniz com as próprias unhas, só porque ainda insiste em nos presentear com seu silêncio resistente? Estaria ela perdendo “tempo”? Como podemos
ouvi-la? Logo nós... míseros mortais que da sua transcendência não entendemos nada.
Como pode me fazer sair por aí percorrendo diferentes perímetros geopolíticos, em diferentes espaços-tempo, fazendo o horror e o rigor se transformarem naquele ponto em que as minhas mãos acreditam ter tocado a pele do sublime?
Como pode me mostrar a face oculta de Deus (e da torre de Gênesis)?
Como pode me entregar uma figura épica diluída, transmutada, absurdamente distante do falho couro fálico que outrora se deu a conhecer? E ainda ressuscitar a musa?
Pode! Aqui pode, porque o eu lírico não se esconde atrás da licença poética com a qual pode se beneficiar. É a licença poética que, para não se envergonhar perante o seu tempo, mostra-se nua.
Aqui, o poeta usa a intertextualidade como lâmina, desvelando camadas subjacentes àquela que se dá ao nosso olhar de eternos aprendizes. Dominando as micronarrativas como quem tem o controle necessário do bisturi, altera o curso da incisão, sem minimizar o benefício da cura.
Aqui, o poeta é capaz de desestabilizar os sistemas do nosso corpo, apenas com o resquício do eco da onda sísmica que criou. Isso porque nos apresenta o mundo tal qual está: Um mundo de impermanência, mas também de travessias, feito de belezas indefiníveis e de feridas incicatrizáveis coexistindo. Um mundo que não quer aceitar a imperfeição humana, mas que precisa dela para continuar a existir. Um mundo que, em pleno século XXI, ainda não sabe que poesia não é matéria morta. Ao contrário. De tão viva que é, pode ressuscitar o quê e quem ele mesmo matou.
Aqui, o poeta concedeu ao eu lírico algo que, talvez, a poesia que pisou única e tão somente os caminhos oficiais não teve coragem de lhe conceder: a corporificação do pensamento.
Com essa virada às avessas, senti coisas que até agora não sei o nome. Aliás, sequer sei se têm nome. Com elas, o poeta não apenas me disse que existem Sendas para um mundo flutuante, como me fez encontrar chão dentro delas. Espero, do fundo do meu coração, que ele faça o mesmo com você! E se você já esqueceu o conselho, talvez valha voltar ao início. Até porque é exatamente isso que esta obra tende a fazer com quem a lê [sente]: voltar ao início.
Sendas para um mundo flutuante, de Robson Hasmann, incentiva o leitor a explorar as múltiplas possibilidades da linguagem poética. Ampliando o universo repressivo de Erro e surpresa (2020), romance que tratou da ditadura militar, agora vemos um autor que mantém a força crítica (“o sol se tingiu de cor nenhuma”), coloca um tempero de metalinguagem (“respiro ritmo e linha”) e arremata com lirismo (“Banhamo-nos [...] para que entremos um no outro.”)
Sendas... é um livro que deve agradar a especialistas em literatura, com referências que vão de Bashô a Zuckerberg, chegando aos temas mais urgentes da política brasileira. Mas também é matéria farta para quem quer apenas se emocionar ou se divertir um pouco, pois abrir uma página aleatória é sentir-se inspirado pelo que o olhar crítico do autor revela: a necessidade de voltar a se espantar com tudo o que nos cerca. Aceitar o chamado dos poemas de Robson é perceber que a vida vale a pena.