Vasni de Almeida (Ribeirão Preto/SP, 1960) é Doutor em História e professor da Universidade Federal do Tocantins, UFT. Publica livros, artigos e capítulos de livros sobre História do Protestantismo Tradicional de Missão e sobre História da Educação Brasileira. Sua primeira experiência como romancista foi a publicação do livro Estradas Desiguais.

 

SANGUE E SILÊNCIO
 

No romance Sangue e silêncio — uma das quinze obras classificadas no Prêmio Sesc de Literatura de 2025, ainda com o título Ramal 65 —, Jurandir Marques volta a viver com sua família após anos em fuga. Nas colônias de agricultores do projeto de reforma agrária do governo militar, tenta reconstruir a vida marcada, até aquele momento, por medo, mágoas e incertezas. Consome seus dias nos trabalhos, ajudando o pai nas plantações, nos cuidados com os animais e na bodega de produtos de primeira necessidade até tomar a decisão de não ser mais um mero espectador diante da realidade de exploração a que estavam expostos os colonos daquela parte da região amazônica.


Sua decisão o leva a se juntar a um grupo de agricultores, que, aos poucos, tornam-se seus amigos e, posteriormente, formam uma associação para o depósito e a distribuição dos produtos coletados em suas roças, meio que encontrou de fazer algo de bom e útil, em contraste com a vida marcada pelo receio que tivera até ali. Envolve-se, assim, em uma teia de relações sociais, na tentativa de aliviar as famílias dos colonos das garras dos que os mantinham na miséria. 


A associação deixa de ser apenas uma ideia e se consolida como um movimento social conhecido na região. Ao propor a expansão das ações já em curso aos apoiadores da associação da cidade, é aconselhado a não avançar.  Jurandir volta para casa, desiludido e triste por ter de dar essa notícia aos amigos. Durante o retorno às colônias, pensa nas idas e vindas de sua vida, nos solavancos que sempre enfrentou. As lembranças o levam de volta à infância vivida no semiárido nordestino, à adolescência passada no Pantanal mato-grossense e à juventude em fuga para o Cerrado goiano e para o sertão paraense. Diante dessas memórias, tenta compreender as vivências que o moldaram e sinalizavam suas cismas.