Por Mariana Guimarães
Ricardo se define como um cara de poucas palavras e poucos amigos, sem muito interesse por coisa alguma a não ser literatura. Aos dezoito anos, ele deixa a casa dos pais no interior de Minas Gerais e se muda para São Paulo, com o plano de fazer cursinho e entrar em medicina na USP. No entanto, o que era para ser uma fase de transição entre a vida pacata em Itabira e os anos de glória na prestigiada faculdade acaba se revelando o início de uma grande libertação.
Aos poucos, somos conduzidos pelas experiências iniciáticas de Ricardo no campo do amor, das amizades e da culinária, que florescem e se complexificam à medida que o jovem consegue escutar algo dentro dele que o convoca a se posicionar de forma inédita na vida.
Com sua escrita cadenciada, minuciosa e sensível, Caio Zerbini nos conduz pelos acontecimentos da vida de um garoto de classe média no final dos anos 1990, e nos faz lembrar de como pode ser engenhoso e angustiante tentar encontrar a própria trilha, em meio àquilo que “todos os jovens fazem” ou “o que todos esperam que eu faça”. O que vemos nesse delicioso romance sobre a juventude é que Ricardo entra por um caminho que parecia ser inequívoco, mas que no curso desses primeiros anos faz dobras, faz voltas, bifurca, termina repentinamente, para recomeçar em outro ponto, ali onde se avista um belo vale, com novas e incríveis possibilidades.