Inventando uma professora | Maria Augusta Grici Zacarin
Às margens da astúcia
por Whisner Fraga

 

 

Que necessidade pode levar uma pessoa a narrar? Estou provocando, é claro. Não basta a transmissão oral de acontecimentos, imaginários ou não: é preciso desafiar a página vazia, abarrotá-la de signos que ajudem a interpretar um acaso ou vários. Munido deste entusiasmo, alguém se dispõe a transformar algo do campo das abstrações para a rigidez da concretude, embora tudo, na verdade, continue no domínio da intangibilidade. Para tanto, são necessárias estratégias.


O estilo de Maria Augusta é parte de um método: não a imagino despertar, casualmente, e se perceber com a obrigação de produzir um relato escrito. Mesmo que isso seja plausível, a escritora nasce da sistematização de procedimentos, de uma luta ferrenha com a palavra, de leituras, treinos, afinal a arte não é um sacerdócio, mas técnica. Qualquer pessoa alfabetizada pode manufaturar um texto, mas escrever bem é para poucos. Maria Augusta escreve bem. A beleza exige transpiração: o artista deve estar preparado para manusear bem a borracha ou até as duas mãos, amassando inúmeras folhas, tentativas frustradas, jogando-as ao lixo e recomeçando. Quantas vezes o artesão sente uma vontade incontrolável de chorar, de espernear, de gritar (uns chegam às vias de fato) porque não consegue o termo exato, não está satisfeito com a frase, não logra anunciar ao papel aquelas ideias tão perfeitas, todavia encarceradas na mente?


Faz-se o possível, às vezes mais.


Por isso, como leitor, descobri aqui um livro de ficção, baseado no mundo palpável, provisoriamente abandonado em algum lugar. Desta maneira, para mim, é mais do que uma obra sobre o percurso de uma educadora, é mais do que uma fábula sobre diferentes construções do conhecimento, mais do que um testemunho de práticas e técnicas para o bom exercício profissional, mais do que um depoimento sobre a afinidade, sobre o amor à humanidade, à carreira: é literatura. 


Quando as crianças emulam a docência, em determinado capítulo, elas experimentam a realidade do universo adulto, na tentativa de compreender (e manipular) as variáveis de uma prática que não lhes pertence. Assim, constroem os fundamentos daquilo que virão a ser: entes investigativos, observadores. A curiosidade, mediada pela empatia, será decisiva para a convivência em sociedade. O fluxo contrário realiza-se bem depois, quando tudo parece decidido e sente-se a imposição do espírito: é urgente reencontrar o passado, alcançar a infância de elaborações e descaminhos, para, deste modo, delinear a sombra de uma nova metamorfose. É um refluxo à época de descobertas, quando é fundamental se sentar ao sofá, com a bandeja cheia de pipocas, e assistir à essa reformulação. Neste momento, como certamente aconteceu com Maria Augusta, as pessoas, ao se tornarem personagens, as situações, ao se converterem em reflexos, carregam o filtro do juízo. Ora com condescendência, a criadora engendra criaturas exultantes, ora com desalento esboça heróis, figurantes, com mais defeitos do que devem ter os sujeitos reais a intimar este esforço de criatividade.


São tantas as invenções!


O cérebro preenche com miragens as falhas originadas pelo desgaste da memória: uma situação é sempre urdida (e ungida) com doses de fantasia, porque o ser humano gosta de fabular. E isso se agrava sob a influência dos anos. Aquelas lembranças de décadas: como se tornaram esse anovelado de detalhes, de descrições? Como transcrever com fidelidade um diálogo distante? Ainda que Maria Augusta tivesse uma mente prodigiosa para minúcias, há a depuração do tempo: durante a existência os homens arrebanham um sem-fim de experiências, conhecimentos, alegrias, ressentimentos, que amalgamam naquilo conhecido como traços da individualidade. É a identidade se imiscuindo na consciência, reconfigurando aquilo que estava aninhado no inconsciente ou no subconsciente, agora despertado pelo verbo.


Cá foram traduzidos, para o presente, episódios transcorridos lá atrás, enquanto todos estavam absortos pelos milhares de incongruências que compõem a matéria de uma vida. Assim, munida dessas concepções, mergulhada na desobediência que só a arte permite e oferece, nesse processo incipiente de gênese, a escritora imagina uma professora e todo esse engenho é, paradoxalmente, a essência dela, porque dela tudo se originou e se converteu em ideias para estas histórias e dela são a responsabilidade e o prazer por toda a liberdade destes heróis e desta novela.