Ana Cecília Carvalho (Belo Horizonte, MG) é escritora, psicanalista e membro da Academia Mineira de Letras. Entre outros livros, é autora de Os Mesmos e os Outros: o livro dos ex; O foco das coisas & outras histórias; A memória do perigo; O livro neurótico de receitas; A poética do suicídio em Sylvia Plath, Livro de registros e Uma mulher, outra mulher. Recebeu o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte em 1975 e 1985, e, em 1991, o Prêmio Brasília de Literatura.
Neste livro, estão reunidas duas obras de Ana Cecilia Carvalho que merecem espaço no cenário literário atual: Livro de registros e Uma mulher, outra mulher. Nesta antologia de contos, objetos também ganham vida e interferem nos acontecimentos, ampliando a atmosfera de estranhamento. Com escrita elegante e sensível, a autora explora os limites da linguagem e do indizível, construindo histórias que desafiam a percepção do real.
Em importante iniciativa, por meio da obra E se eu disser apenas a verdade, a Editora Sinete traz de novo a público o Livro de Registros e Uma mulher, outra mulher, as premiadas coletâneas de narrativas breves com que Ana Cecília Carvalho se apresentou aos leitores como contista. Nestes primeiros textos ficcionais (de 76 e 93, respectivamente), ela já mostrava, em alguma medida, a que veio, deixando entrever as trilhas que percorreria no futuro, como as que resultaram na densa ‘trilogia da inquietude’, lançada entre 2017 e 2019 (e composta por Os mesmos e os outros: o livro dos ex; O foco das coisas & outras histórias, e A memória do perigo). Reconhecidas nacionalmente, as duas obras iniciais contêm elementos que, mais tarde, se tornariam recorrentes em suas tramas, sendo, portanto, ‘chaves’ fundamentais para compreender as ‘linhas de força’ da sua literatura.
Entre eles, necessário destacar a instauração, em várias histórias, de um universo bastante particular — dividido entre o oculto e o manifesto, o inconsciente e o consciente, o sono e a vigília, o sonho e a realidade, o silêncio e o som, a pausa e o movimento — em que os personagens circulam, muitas vezes, de modo inesperado e surpreendente, reféns de razões que desconhecem e de sentimentos que não entendem, como se não fossem integralmente responsáveis por governar seus atos e suas palavras. Além deles, há também os objetos que os circundam e que com eles contracenam, todos possuidores de vida e personalidade. Assim como as pessoas, aqui as coisas respiram, produzindo sentidos e interferindo no curso dos acontecimentos.
Roçar o indizível também é marca da escrita da autora, hábil em forçar os limites da representação do real pela linguagem, explorando suas dobras e seus pontos cegos, visitando lugares perigosos. “O que escrevo me assombra”, disse Ana Cecília, certa feita, refletindo sobre a frequência com que caminha sobre territórios antes não imaginados. “Escrevo para saber o que penso”, acrescentou, parafraseando Susan Sontag, e revelando que prefere a aventura ao cálculo, a coragem ao plano, a novidade ao pré-concebido. Tudo isso — e é bom que se frise — feito em estilo elegante e culto, fruto de rico repertório intelectual e estético, generoso nas referências à música, ao cinema, às suas heranças culturais e às memórias de seus antepassados. Sempre leal à sua mais fina sensibilidade.
A coletânea E se eu disser apenas a verdade, de Ana Cecília Carvalho, longe de trazer o conforto da confissão, instaura, em narrativas curtas, o estranho e o familiar, irmanados pela linguagem. Os vários textos que ora armam e ora desarmam os sentidos foram escritos e publicados nos idos de 1970 e 1990. Nesta segunda edição, eles revelam o frescor de sua atualidade. Desde o título ou desde a primeira linha do primeiro conto, o leitor perceberá que caiu em um pitfall, uma armadilha, da qual não poderá se desvencilhar impunemente. Há, no entanto, fios imaginários, que parecem guiá-lo nesse labirinto de vozes que assombram a escrita, um humor sutil e uma ironia cáustica que farão aflorar desejos inconfessáveis de se reconhecer em personagens que, vez por outra, deixam vislumbrar um mal recôndito, um bem quase imperceptível. Lágrimas não são analisáveis, nenhum final é possível em jogos de espelhos, uma mulher, outra mulher, qualquer mulher, ou homem, pode ser apenas vislumbrado ao fim de uma rampa que pode levar a lugar algum. O tempo narrativo é, pois, dos sentidos, não do registro factual. Não há receita de vida, nem consolo nesses textos. Há uma corrente de nós sobre nós, de linhas e trilhas sonoras que fazem dançar as máscaras de verdades e mentiras, de ontem, de hoje, de sempre.
Acompanho a carreira literária de Ana Cecília Carvalho desde os assim chamados primórdios, os dias iniciais, ela ainda cursando Psicologia na UFMG, a Universidade em que ela seria professora. Era no tempo (1973) em que ela recebeu seus primeiros prêmios literários, tempo de que também se lembra bem o escritor Jaime Prado Gouvêa, outro fascinado pelos primeiros contos dela, fora do padrão comum.
Para Jaime Prado Gouvêa, ela só cresceu desde então, firmando-se “como uma das grandes escritoras do nosso tempo.” Com o que concordo plenamente e como comprovam os numerosos prêmios que desde então alcançou, como o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte e o Prêmio Brasília de Literatura.
Da nossa autora, psicanalista experiente, temos agora a reunião de dois de seus livros de início de trajetória literária, com profunda imersão na Psicanálise: Livro de Registros e Uma mulher, outra mulher.
Há nesses contos um toque intenso de maravilhoso, de sobrenatural, de mágico, de sutis e candentes mergulhos na alma, na psique dos personagens. A autora mantém com personagens e leitores uma sintonia fina (fine-tuning, se assim posso dizer) e profunda, dramática. Temos diante de nós o fulgor e o colorido de algumas histórias, e também o cinzento, o gris, a amargura e o trágico muitas vezes apenas insinuado. O tempo todo, a autora faz um pacto tácito com o leitor: ele não quer parar de ler, ele quer acompanhar o desenrolar e o fim da história. É essa uma das marcas dos grandes escritores, de ficção e de não-ficção.
O leitor encontra situações às vezes exóticas, absurdas, comportamentos estranhos, sustos, pequenos choques e espantos na realidade quotidiana, burguesa, corriqueira — sumiços, suicídios (?), irrealismos inimagináveis. Eia, pois: “um cavalo transparente sorrindo”, “canções sem sentido sobre campos de girassóis e o futuro”, “que mal lhe fizemos, anjo do mar?” Assombrosos acontecimentos e aparições. E aquele conto surrealista com a personagem Veronika Blake no café-concerto e depois presa no elevador, uma pré-morte...), ficando...transparente...
Solidão, desolação, perdição, beira do abismo...
E Sara via o olho bíblico de Mateus “em luta constante com o reino da Mesopotâmia (e aqui me lembro dos livros do assiriólogo Bottéro) — esse conto, “O Messias e o povo de Deus” considero um dos melhores da autora — e muito de seu estilo.
O último conto de Livro de registros (que dá nome ao volume) se apresenta ao leitor sem qualquer pontuação; flui, como um rio, deslisa no tempo, são estados de alma, são profundezas abissais da alma e seu final é maravilhosamente impactante; o personagem sem nome...não, não vou contar o final!
Já em Uma mulher, outra mulher, o primeiro conto, sensacional (sem sensacionalismo!), dá mostra da alta qualidade dos contos que se seguirão. De quem é o corpo assassinado que vem no carro descendo a rampa? É de um homem qualquer, no triângulo amoroso, ou é de Julio Cortázar, de Jacques Lacan, Pat Metheny, José J. Veiga ou Ítalo Calvino?
E temos S. H. Lowell e seu poema hermético. Perguntamos: que mandarim excêntrico de uma remota dinastia disse que “a rachadura na xícara de chá é o caminho para a morte”? Hein? Que mandarim (talvez amigo daquele do Eça de Queiroz), numa demorada cerimônia do chá, com gueixas e haicais?
E Júlia, leitor, Júlia está muito pálida, e com um perfume que pode ser “Shalimar” ou “Rive Gauche” ou até — quem sabe? — aquele mais refinado da Bonequinha de Luxo Audrey Hepburn (de Truman Capote), contemplando as lindas e icônicas vitrines da famosa joalheria Tiffany, no clássico filme de 1961?
A esses dois livros se seguiram muitos outros, da mais alta qualidade literária, entre eles o extraordinário A poética do suicídio em Sylvia Plath, do qual afirmou Eliane Accioly, no último parágrafo de sua análise crítica: “A poética do suicídio em Sylvia Plath é, por isso, uma poética da dor na obra, vida e morte de Plath, embora traga a dimensão de que cada ser humano será sempre pleno e misterioso, inacabado e singular.”
Ainda ontem, conversando com Ana Cecília Carvalho, por e-mail (meu limite tecnológico de correspondência virtual), a propósito da trágica e sufocante morte dos cinco mergulhadores, no Atol de Vaavu, nas Ilhas Maldivas, 60 metros abaixo do nível do mar, ela me falava da sua perplexidade, do seu assombro diante da vida, da existência. Sentimentos de que profundamente compartilho. E que, afinal, estão presentes, ostensiva ou subliminarmente, na obra literária da grande escritora que é Ana Cecília Carvalho, um dos mais destacados nomes da literatura brasileira contemporânea, segundo os mais tarimbados leitores e competentes críticos literários.
O volume que o leitor tem em mãos reúne dois livros: o primeiro, Livro de registros, foi publicado em 1976 pela Editora Interlivros. Nele, constam onze contos premiados no ano anterior no Concurso Literário Cidade de Belo Horizonte e que, no mesmo ano, foram publicados pela Editora Comunicação com o título Trilha sonora para o capitão no sonho.
O segundo livro, Uma mulher, outra mulher, foi publicado em 1993 pela Editora Lê. Desse livro, há doze contos agraciados, em 1985, com o Prêmio de Literatura Cidade de Belo Horizonte, aos quais foram somados outros cinco, resultando em um volume que, em 1991, recebeu o Prêmio Brasília de Literatura concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal.
Ao reler esses dois livros décadas depois, sou tomada de uma sensação de estranhamento familiar, que evoca o Unheimlich descrito por Freud. A maior parte desses contos foi escrita no frescor dos meus 20 e poucos anos e revela algo perturbador que só posso descrever como um olhar nada ingênuo, quase despido de ilusão, sobre a realidade. Ao mesmo tempo, o clima onírico, de realismo fantástico, das histórias deixa entrever uma posição temperada de ironia diante do que, penso agora, poderia ser descrito como uma visão destemida diante da crueldade, da solidão, da loucura, da falta de esperança que expõe a fragilidade dos laços entre as pessoas.
Nesses contos, reencontro, surpresa, alguns temas e alusões que estruturariam eixos importantes da “trilogia da inquietude”, publicada entre 2017 e 2019, composta pelos livros Os Mesmos e os Outros: livro dos ex; O foco das coisas & outras histórias e A memória do perigo. A recorrência de alguns elementos, como as referências musicais, históricas, cinematográficas e culturais, tais como a presença da minha ancestralidade judaica, aparece neste volume como minha impressão digital. Essa marca distintiva é feita de um assombro diante do que, provavelmente, tempos depois, me levaria ao exercício da psicanálise, que pratico desde 1980. Na minha vida, a escrita literária, ofício iniciado muito antes da escuta dos pacientes, provavelmente, se faz, desde muito cedo, para elaborar a minha inquietação diante do previsível e ao mesmo tempo inevitável da vida e de seus infinitos modos de recomeço.
Este livro não seria possível sem o estímulo e a dedicação da minha querida amiga Lyslei Nascimento que, generosamente, fez a transcrição do texto original para sistemas modernos de edição, revisou todo o material e se prontificou a enviá-lo para a Editora Sinete. A ela serei sempre grata.
Expresso aqui a minha gratidão a Danilo Gomes, amigo com quem, há décadas, compartilho inquietações em uma correspondência que nunca deixou de servir como semente para reflexão e criação literária.
Sou grata também a Jaime Prado Gouvêa, Carlos Herculano Lopes, Ângelo Oswaldo de Araujo Santos, Rogério Faria Tavares, Branca Maria de Paula, Riva Schwartzman, Hugo Almeida, Whisner Fraga e Carla Dias.
A Melania Silva Aguiar (in memoriam), Eneida Maria de Souza (in memoriam), Moacyr Scliar (in memoriam) e Sonia Coutinho (in memoriam), minha gratidão.