Lara Vaz-Tostes é autora e poeta. Em sua escrita, une delicadeza e densidade, explorando o silêncio, o nome e a travessia como formas de autoconhecimento. Publicou O lugar que não existe (mas sou eu) e Por dentro, de onde os nomes nascem. Sua poesia é um gesto de escuta e busca pela beleza que permanece.

 

CORPO-SILÊNCIO
 

Lara Vaz-Tostes conduz o leitor por uma travessia poética em que o silêncio, o tempo, o corpo e a linguagem se entrelaçam na busca pelo o que antecede o nome e a palavra. Dividida em cinco partes, a obra percorre um caminho que vai da escuta íntima à reflexão sobre o mundo, a ética e o indizível. Com versos de intensa concisão e imagens de grande força simbólica, a autora transforma inquietações filosóficas em experiência sensível, revelando uma poesia que resiste à pressa e convida à contemplação. Um livro que faz da palavra um gesto de aproximação do mistério que habita a existência.

 

A FRONTEIRA ENTRE O MISTÉRIO E O NOMEÁVEL
Por Whisner Fraga
 

A poesia de Lara Vaz-Tostes nasce de uma apreciação radical do mundo e de si. Antes mesmo de se fixar como enunciado plenamente estável, seus versos se instalam numa zona de silêncio anterior à palavra, onde sensação, pensamento e linguagem ainda não se dissociaram. Ao longo deste livro, o que se revela não é apenas um conjunto de poemas, mas um percurso de investigação sensível sobre aquilo que, no humano, resiste à nomeação imediata, porque talvez não possa ser nomeado. Há, portanto, uma poética do limiar — do quase, do intervalo, do que pulsa e ecoa antes de se tornar discurso.


Desde o poema inaugural, “O corpo escuta o que não se diz”, percebe-se que o eixo estruturante da obra é a escuta. Um interlocutor surge como instância cognitiva privilegiada: é por meio dele que a vida se organiza e se transforma em palavra. Essa escolha aproxima a autora de uma linhagem moderna que compreende o poema não como mera expressão espontânea, mas como trabalho de transmutação da experiência: autêntico, portanto. Neste sentido, a reflexão de T. S. Eliot permanece iluminadora. No ensaio “Tradição e talento individual”, afirma: “A poesia não éum modo de libertar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”.


A leitura da poesia de Lara Vaz-Tostes, contudo, mostra como essa “fuga” não implica apagamento do sujeito, mas sua depuração. O eu que fala em seus poemas não se impõe de forma confessional; antes, se apresenta como zona de passagem, superfície sensível em que forças difusas se contrapõem e se complementam. Trata-se de uma subjetividade porosa, em permanente suspensão — e é justamente essa porosidade que confere densidade à sua voz lírica.


Outro traço marcante deste livro é a condensação verbal empreendida por meio do trabalho com as diversas figuras de linguagem. Alfredo Bosi, em seu O ser e o tempo da poesia observa que as “frases não são linhas. São complexos de signos verbais que se vão expandindo e desdobrando, opondo e relacionando, cada vez mais lastreados de som-significante”. É a imagem que não pode e jamais poderá ser retratada por meio de símbolos fonéticos, mas que persiste. 


Lara Vaz-Tostes demonstra compreender que o tempo, na sociedade contemporânea, não se apresenta como continuidade serena, mas como fratura e vertigem. Seus versos curtos, muitas vezes entrecortados, produzem uma respiração irregular que mimetiza essa instabilidade. Forma e conteúdo, aqui, se reforçam mutuamente.


Há, nos versos deste “corpo-silêncio” a construção de um cotidiano deslocado. Em poemas como “Ângulo Incorreto” e “Máquina Demoníaca”, a realidade não se rompe de modo espetacular; ela se curva discretamente. Esse procedimento produz um efeito muito eficaz de estranhamento. A poeta intui que, no mundo de hoje, o inquietante se manifesta menos por rachaduras grandiosas e mais por pequenas falhas de alinhamento entre sujeito e realidade.


Do ponto de vista formal, observa-se um trabalho consistente de economia verbal. Muitos poemas se estruturam por meio de cortes bruscos, versos breves e imagens de alta concentração semântica. O sentido, assim, é intensificado por meio desta contenção expressiva, sublinhada por diversos silêncios ecoando nas quebras e interseções dos poemas. O não-dito, aqui, não é lacuna passiva, mas força estruturante.


Lara Vaz-Tostes consegue manter a tensão poética por meio de um ritmo controlado, evitando a transparência excessiva do discurso direto. A poeta radicaliza a investigação do que antecede a palavra e se aproxima de uma experiência de interioridade extrema. É uma fenomenologia da escuta, em que a palavra parece habitar a delicada fronteira entre o mistério e o nomeável. É nesse movimento regido pela metafísica que a poesia alcança seus momentos mais profundos.


Desde os primeiros versos, percebemos estar diante de uma poesia que não pretende apenas nomear o mundo, mas se aproximar do ponto em que a linguagem nasce e pode, ainda que precariamente, ser exteriorizada. O livro é organizado em cinco partes — Antes do nome, Tempo, Mundo: tela, dor e engano, Fogo: ética, recusa, voz e Teologia íntima do indizível. Essa arquitetura revela um movimento quase iniciático: do prenomeado ao indizível, do corpo que percebe ao pensamento que pressente aquilo que ultrapassa qualquer forma (e tentativa) de definição.


Na primeira parte, Antes do nome, Lara Vaz-Tostes se dedica a investigar aquilo que existe antes da palavra. Não se trata apenas de silêncio, mas de uma região mais profunda do íntimo, onde o sentir precede o conceito. Um dos versos mais luminosos desse início diz:

 

Tinha, dentro de si, algo mais antigo do que qualquer nome.


Esse excerto inaugura um dos eixos fundamentais da obra: a ideia de que há algo na experiência humana que antecede o gesto de nomear. A poeta — ou voz que habita o poema — parece caminhar nesse território em que o sentido ainda não se fixou, mas tateia o mundo em estado larvar. O poema continua a sugerir essa dimensão liminar quando afirma que a personagem “vivia entre montes e rios — / na dobra entre um gesto e um arrepio”. A dobra é um espaço simbólico: ali, entre ação e sensação, o poema encontra o seu lugar.


Lara Vaz-Tostes, neste corpo-silêncio trabalha frequentemente com esta percepção de um entre-lugar. Em outro momento dessa mesma ação, encontramos uma descrição quase mística da palavra que ainda não foi dita:


Sentia a palavra-nunca-dita tal qual um calor nascente,
deslizando pela nuca, pelos ossos,
pelos cílios,
até repousar no ponto onde germina a vertigem
de existir fundo demais.


Aqui, a palavra deixa de ser apenas instrumento e passa a ser corpo — uma energia que percorre nervos, ossos e respiração. A escrita transforma o pensamento em tentativa de sentido. Ler estes versos é perceber que o poema não pretende explicar nenhum mistério, mas tateá-lo.
Há também, nesta primeira parte, a noção de identidade como algo em formação (talvez permanente). No poema “sem lado de fora”, por exemplo, encontra-se a formulação de uma presença interior que não exige definição:

 

Tem algo que me acompanha.

Não chega.
Não parte.


A sequência é deliberadamente simples, quase minimalista, mas nela se revela uma percepção filosófica profunda: a identidade como algo mutável, uma presença que se move junto ao sujeito. Neste ponto surge o nome provisório para esse núcleo interior, precário — “ethos-eu”. A expressão funciona como uma tentativa de aproximação: um modo de indicar aquilo que existe no íntimo e que não precisa ser provado.


Essa dimensão reflexiva continua na segunda parte, Tempo, em que a poeta investiga a relação entre permanência e transformação. O próprio título de um dos poemas, “Constância em fuga”, sintetiza bem esta tensão. O tempo aqui não é uma linha reta, uma sucessão de eventos, mas um campo de respiração. A experiência humana aparece como algo que se sustenta na repetição do instante — respira, retorna, se desfaz e volta a se formar.
Já a terceira parte, Mundo: tela, dor e engano, amplia a visada poética e observa o cotidiano. O título sugere uma crítica implícita à mediação das coisas como formas de alienação do presente. O mundo aparece como superfície, como tela, como espaço onde a verdade pode se distender e se distorcer. Entretanto, mesmo nesse cenário de dispersão, este livro mantém a busca por algo essencial — a realidade sensível que não se deixa reduzir à lógica das aparências.


Lara Vaz-Tostes tem uma capacidade impressionante de transformar reflexão filosófica em imagem poética e vice-versa. Em vez de argumentar diretamente, o livro sugere, aproxima, desenha pequenas constelações de sentido.


Na quarta parte, Fogo: ética, recusa e voz, a poesia assume um tom mais afirmativo. O fogo aqui não é destruição, mas intensidade — a chama que sustenta uma posição ética diante do mundo. O poema passa a falar de escolha, de recusa de olhar. Há um impulso de resistência silenciosa que atravessa esses versos, como se a própria escrita fosse uma forma de manter viva uma sensibilidade ameaçada pela pressa e turbulência dos dias atuais. A raiva que consome o conformismo é a matéria-prima dos versos de “Flor de fogo”:


Não sou feita de ódio. 
Sou feita de ética. 
Mas minha ética, às vezes, queima. 


Por fim, chegamos à quinta parte, talvez a mais misteriosa: Teologia íntima do indizível. O título anuncia o que está em jogo: uma espiritualidade que não depende de dogma, mas de experiência interior. O livro se aproxima de um território que poderia ser chamado de metafísico, mas sem abandonar a delicadeza do gesto poético.


Nesse percurso, a obra sugere que o sagrado não está em uma revelação externa, mas na própria intensidade da percepção. O poema se torna um lugar de escuta — um espaço onde o silêncio também fala — e muito, da gênese.
Essa dimensão aparece nos versos de “O primeiro gesto”:


Não era silêncio.
Silêncio ainda é som contido.
Ela era origem.


A poesia funciona, aqui, como um despertar sensível. É dessa forma que a linguagem se move entre simplicidade e profundidade. Muitos versos são curtos, quase fragmentários, mas a sua combinação cria um campo de reflexão bastante amplo. Lara Vaz-Tostes confia na inteli-
gência sensível do leitor – não explica tudo, não encerra significados, mas abre espaços de contemplação. Em certos poemas, uma única imagem sustenta toda a experiência do poema. Como em “O oráculo das margens não escritas”:


São margens feitas de intenções caladas, de palavras que ainda não encontraram forma, suspensas.


Desta maneira, este livro não se oferece apenas como leitura, mas como travessia. Cada parte corresponde a uma etapa dessa caminhada: primeiro o silêncio anterior ao nome, depois o tempo, a seguir o mundo, depois a ética do fogo e, por fim, o território do indizível. No centro dessa jornada permanece a pergunta fundamental da poesia: o que significa existir? Mas a obra, claro, não pretende responder esta questão, mas somente tangenciar as imagens com pausas, com pequenas, capitais, revelações.


Como afirma a poeta em um dos versos iniciais do livro, existe “uma palavra — uma única/ que nunca fora dita”. Essa palavra ausente que pode significar tudo e nada é o horizonte desta obra: um ponto que não se alcança completamente, mas que orienta o movimento do poema. 


Ler estes poemas é acompanhar alguém que caminha em direção a essa palavra impossível e inexistente, para reconhecer sua presença invisível no interior da experiência.


No panorama contemporâneo, marcado pelo excesso de verbalização ou pela busca de efeitos imediatos, a poesia de Lara Vaz-Tostes aposta em outra direção: a da escuta, da pausa e da forte densidade do mínimo. Sua escrita não procura preencher o silêncio, mas torná-lo audível. 


Este corpo-silêncio apesenta uma poeta que demonstra rigor formal, sensibilidade aguda e consciência crítica dos instrumentos essenciais para se produzir uma poesia contundente. Como anuncia o verso que abre esta obra — e que ecoa ao longo de todo o percurso — há algo que o corpo percebe antes mesmo da linguagem. Algo que o poema tenta representar. Algo que, talvez, sempre esteve ali. Um silêncio à espera de alguém que o ouça.

 

POR HUGO ALMEIDA
 

As palavras de Gaston Bachelard em O direito de sonhar valem com justiça para este Corpo-silêncio, de Lara Vaz-Tostes: “O instante poético possui perspectiva metafísica. [...] é, pois, necessariamente complexo: emociona, prova – convida, consola – é espantoso e familiar”. Elo harmônico de dois contrários, “uma ambivalência excitada, ativa, dinâmica”. No livro inteiro de Lara, o leitor encontra inquietação e sossego, em pacto engenhoso e versos livres, de singular encanto. Lado a lado, perplexidade e beleza.


Dotada de sublime, imensa sensibilidade, Lara expressa o seu enorme talento em poemas de silêncio táctil, palpável, às vezes aflito, sonoro, eloquência em surdina. O eu lírico não doutrina para o enlevo; aponta com leveza para o belo, o inusitado, a vida que pulsa no cotidiano e fora dele, no próprio vão do sonho real, curvo, circular, “presença que não revela, / só vibra, densa, nas entrelinhas” e “nos confins de silêncios e pensamentos”. 


O que move a arguta poeta? A solidão humana, a ânsia da descoberta? Não só. Mas a vida mesma em curso, o arrepio do belo, da dor, do espanto, da flor (“que arde por dentro”), do indizível, de “ausência viva”, do “suspiro tenso”. Lara presenteia o leitor com versos belíssimos plenos de alma, luz (que “conhece ventos”), instantes, raízes, ruídos, silêncios (“grito virado do avesso”), sol deslocado, tempo (“prisão fluente”), vertigem. 


Ela busca a palavra inexistente, algo impossível de nomear, encontra um fio “que não quer ligar/ Só passar”, uma “lembrança que ainda não aconteceu”, o “sossego ferido/ Uma calma que doía”. Em certos momentos há um ou outro eco, distante, de Clarice, Fernando Pessoa e Drummond, tudo homenagem. Lara Vaz-Tostes revela aqui um admirável estilo peculiar, pura delicadeza, de autora jovem e já madura que começa a incluir o nome no cânone da Literatura Brasileira.