Thiago Costa Franco (São Paulo/SP, 1984) passou a infância e a adolescência no litoral e, de volta à capital, graduou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Escritor, professor de Língua Portuguesa e Literatura e pai, é autor da antologia de contos Mutum. Filho de uma nordestina e de um caipira paulista, traz em sua escrita a mistura de estilos, vozes e vivências que marcam profundamente a cultura brasileira.

 

BOLHAS DE AR RAREFEITO
 

Em "Bolhas de ar rarefeito", Thiago Costa Franco revela o que se esconde sob a superfície da realidade. A coletânea reúne vinte contos que funcionam como bolhas frágeis, conectadas por membranas prestes a se romper. Entre relatos, diálogos, poemas e anedotas, emergem tensões, conflitos e a pulsação da vida cotidiana. A linguagem, em seus múltiplos estados, é a matéria que dá forma e densidade às narrativas. Uma obra que expõe metáforas, contradições e a luta invisível por trás da aparente leveza.

 

Por Thiago Costa Franco

 

Em uma das várias entrevistas que dei para jornalistas, críticos literários ou curiosos do Brasil e do mundo, quando perguntado sobre os meandros de meu processo criativo, afirmei aquela que mais tarde se tornaria minha resposta favorita, dentre todas as demais mentiras e pretextos que viriam a formar minha persona literária. Na ocasião, aleguei que durante minha escrita costumo assumir o papel de um grande mentiroso, fingindo ser aquilo que não sou, nunca fui e provavelmente nunca serei. Metaficção? Não sei ao certo, entendo pouco desses conceitos formais inventados com o único propósito de circunscrever a literatura em si mesma, impedindo-a de ser objeto de transformação social, sua autêntica e formidável vocação. O que posso afirmar, contudo, é que uma parte considerável desse tal processo criativo é composta por puro fingimento e mentira deslavada. Sim, é verdade: escrevo como se tivesse vocação para tal ofício, como se cada história criada fosse produto de uma mente metódica, prolífica e disciplinada; escrevo como se meus livros fossem ser lidos por oitenta-e-seis-vírgula-sete-por-cento da população maior do que quinze anos de todo o planeta Terra (e por alguns outros curiosos mais jovens, naturalmente), e que a sobrevivência do gênero humano dependesse do sucesso ou não de minha empreitada artística; escrevo como se tivesse sido laureado com o Prêmio Nobel de Literatura na semana passada, tendo que defendê-lo de invejosos ou daqueles críticos hipócritas que me atacam semanalmente nos jornais; escrevo, por fim, como se o futuro da literatura nacional e da cultura, como um todo, estivesse em minhas mãos.


Todavia, a realidade ficcional muitas vezes passa ao largo da realidade concreta, e posso afirmar ser este o meu caso: como escritor, sou um contumaz mentiroso. Não tenho problemas em assumir que minha ficção é composta por pequenas mentiras isoladas, como bolhas prestes a estourar, revelando o vazio de suas entranhas, o ar rarefeito que compõe a atmosfera da vida humana. Mentira literariamente justificada, essa é a verdadeira natureza da minha escrita. Tendo em vista, entretanto, que a matéria criativa (sendo matéria, e não essência) deva ser construída a partir de escombros minimamente reais, pergunto-me se é possível, de fato, produzir-se um texto que seja completamente fictício. Suspeito que não. E aqui devo confessar uma outra mentira: não é verdade que minha realidade fictícia passa ao largo da realidade concreta (a essa altura achei que esse ponto já estivesse suficientemente claro ao leitor). O quanto um escritor bem-intencionado toma emprestado de suas próprias verdades ao inventar suas histórias? E o que importa isso, afinal de contas, se o que me disponho a fazer é literatura, e não depoimento, testemunho ou diário?
Iniciemos pela mais óbvia constatação: vejam só quanta mentira impressa em um prefácio que se propõe não-fictício! Para começar, não é verdade que dei várias entrevistas para jornalistas, críticos e curiosos, do Brasil e do mundo. Não por minha culpa, devo ressaltar, mas por total e absoluta distração por parte deles. Se preferem perder tempo com mexericos e futilidades, que culpa tenho eu? Nem tampouco tenho milhões de leitores, embora pudesse tê-los, não fosse a má vontade dos editores, livreiros, propagandistas e Ministros da Educação deste país subdesenvolvido e dependente! E, naturalmente, não tenho quaisquer problemas com críticas semanais nos jornais, mais um devaneio fictício de minha parte. Além do mais, nem é verdade que foi na semana passada que ganhei meu prêmio Nobel…


Trago essa questão neste prefácio porque sinto que é preciso nos atentarmos a algo fundamentalmente importante para os dias de hoje. A ficção pode ser uma forma genuína de trabalharmos as verdades de um mundo rendido à retórica, à propaganda, ao subjetivismo exacerbado, à mentira escancarada, ao relativismo imobilizador. Acostumamo-nos ao falso e naturalizamos o discurso embusteiro dos políticos, a farsa dos editoriais, as balelas dos economistas. E o que dizer dos influencers, marqueteiros, filtros, algoritmos, procedimentos estéticos, metaversos, inteligência artificial e todas as artimanhas e maquiagens criadas para nos impedir de enxergar a concretude do mundo real? E cinicamente chamamos a tudo isso de “realidade”. Irônico? Não, deixemos a ironia para o campo da ficção, cujo terreno fértil, se bem cultivado, pode produzir mais do que mercadorias de exportação. Se o real aparenta ser ficção e vice-versa, assim foi planejado para sê-lo, por aqueles que podem fazê-lo.


Um escritor, por sua vez, em seu universo fictício, tem o poder de planejar e de executar sua realidade literária, para, ao menos, representar a realidade objetiva do mundo. Quando muito, simbolizá-la. Pode, portanto, mentir para ocultar ou mentir para revelar verdades. E verdades existem, para a surpresa de alguns!

 

Proponho-me, nestes vinte contos, a revelar algumas verdades importantes, “com a chama ideal de todos os mistérios”, como nos disse o grande poeta brasileiro João da Cruz e Sousa. O exigente leitor poderá dizer se obtive algum êxito nessa empreitada.


Bolhas de ar rarefeito possui uma pincelada a mais de subjetividade, em comparação à minha obra anterior. Diferentemente do que busquei fazer em Mutum, aqui optei, em alguns contos, por dar mais voz a narradores homodiegéticos, geralmente testemunhas, para construir aqueles contextos de causos recontados, uma história dentro da história, uma das marcas mais notáveis da nossa cultura popular. Em outros contos, trouxe à tona personagens fragilizados por rupturas, impossibilidades e insuficiências, aspectos inerentes a uma sociedade que vem perdendo pouco a pouco a utopia da mudança. Continuo, além disso, experimentando a mistura de linguagens, como a poética, a dramática, a jornalística, o relato, a anedota, a crônica, entre um ou outro arranjo mais ousado, pois creio que realidades complexas merecem ser tratadas com o devido rigor e decoro estéticos.


Por fim, o leitor encontrará nessas Bolhas de ar rarefeito algumas verdades fictícias construídas a partir de retalhos de realidade, mentiras verídicas e fingimentos fidedignos, tudo isso à luz da concretude da vida real. Bolhas que se conectam por finas e instáveis membranas, na iminência do estouro. Mímesis, poiesis e realidade concreta em estado gasoso.