OS AFORISMOS DO CIBERPAJÉ | EDGAR FRANCO

 

Os aforismos do Ciberpajé
Prefácio | Whisner Fraga

 

 

edgar e eu somos também conterrâneos: dividimos tempo e espaço: nos conhecemos desde a infância e tenho por ele uma intensa admiração, retroalimentada e mediada por diversas afinidades, mas, sobretudo pela amizade e pela empatia,
portanto, é com espanto e honra, que escrevo este prefácio afetivo,


naquele tempo, edgar me apresentou a um livro de omár khayyám: ainda soa estranho, para mim, que este primeiro contato definitivo com a literatura tenha acontecido por meio dos aforismos de rubayat: tudo tão impregnado de ousadia, de vigor, de entusiasmo, de pujança, de objetividade, de poesia, de niilismo, como se uma heterodoxia ditasse os sentidos dos vocábulos, tão simples que não consegui mais enxergar o mundo de outra forma, 


décadas depois aquela sensação de espanto me invade, novamente: nas páginas efêmeras das redes sociais, edgar ressurge (reemerge) com os aforismos do ciberpajé: aquele enternecimento rígido de khayyam estava todo ali, aquele lirismo amansado pelo pensamento, a selvageria, talvez, a mansidão, a tocaia,


leitor daquelas breves reflexões (breves, mas não superficiais – ciberpajelanças?), fui percebendo uma certa unidade temática, estilística, e imaginei que mereciam ser compiladas e publicadas em forma de livro: eis-nos aqui!, 


esta obra é um tratado de transmutação e, como tal, acumula funções: pode ser lido como ficção, como relato, como biografia, como crônica, como ensaio, e é muito mais: há aqui um amor à palavra, uma tentativa de transportar para o suporte verbal algo essencialmente intraduzível,
as três partes deste livro, de maneira sagaz, se confrontam (mas não se sobrepõem nem se contradizem): primeiro, testemunhamos a espontaneidade entremeada pela coragem, a procura pela plenitude, a conexão com a vida, ampla e estrita, compreendida como unidade e cosmogonia, é o retorno ao princípio de que nos dissociamos por egoísmo, é o refluxo, a união, a trilha a uma liberdade tão utópica quanto desejada, é o tempo da aprendizagem, é a caminhada, a contemplação, o agradecimento,


depois a maturação, a metamorfose, a transgressão, quando o passado se revela, finalmente, como é: uma dimensão que a memória resgata de forma precária, preenchendo, com embustes e desejos, histórias que não existem mais: e o futuro imperscrutável na sua posição de utopia, o presente abrandado pela vontade do presente: é o possível, e o ciberpajé nos ensina que a realidade é filtrada pela limitação dos sentidos: tudo é farsa e tudo é verdade,


o que fazer com isso?, com essa consciência que nos engana e que nos concebe?,


fechando este percurso circular (ou pendular), a terceira parte é uma fusão entre as duas primeiras, ainda que não haja uma divisão temporal dos aforismos: aqui a descoberta é retroalimentada com a experiência, a condição para prosseguir: esquecer avanços e recuos: peregrinar,
é o principal recado destes aforismos (ainda que eu não goste de reducionismos): só é possível permanecer se for em comunhão, primeiro consigo, após com o que o rodeia – assim faz o ciberpajé, assim deve ser.