OS AFORISMOS DO CIBERPAJÉ | EDGAR FRANCO

 

desaforismos, aforismos e hqforismos como atos de transmutação de um magista
Edgar Franco

 

Inicio esse posfácio tratando de minha transmutação artístico-mágicka em Ciberpajé. Em 2011 descobri que era necessário propor a mim mesmo uma transmutação e renascimento quando me aproximava da idade de 40 anos, a idade da maturidade. Isso ocorreu logo depois de uma profunda crise existencial deflagrada por uma experiência com o enteógeno Psylocibe cubensis, durante um período de 9 meses – tempo de um renascimento completo – passei a limpo minha existência nesse período que antecedeu a data de meu aniversário, com humildade e serenidade perdoei-me completamente por todos os chamados erros – na verdade experiências fundamentais e fundantes de minha evolução da consciência. 


Percebi que a minha vida sempre foi pautada pela criação de mundos ficcionais em minha arte e pelo trânsito de informações e sensações desses meus mundos ficcionais com minha realidade ordinária. Notei também que os aspectos mais importantes de minha consciência foram moldados por essa relação mágica e transformadora entre os meus mundos ficcionais e minha realidade. Assim me vi como um pajé que promove a relação entre mundos/cosmogonias em busca da cura, mas nesse caso a minha própria cura, a busca de ser integral. A batalha do Ciberpajé é a batalha de ser, ser eu mesmo! Portanto o Ciberpajé não é um guru ou líder espiritual, ou algo nesses termos, ele é só um ser buscando a única revolução possível: a dele mesmo! Obviamente essa minha revolução pode sim inspirar as pessoas que entram em contato com minha obra e ideário. O prefixo “ciber”, vem da cibernética, pois o Ciberpajé utiliza-se da hipertecnologia como canal para criação, difusão e conexão com outras mentes, mas não nega outras formas avançadas de conhecimento como a expansão da consciência através de enteógenos – as chamadas plantas de poder e outras tecnologias de ENOC – estados não ordinários de consciência, como a respiração holotrópica e os rituais artísticos de presença, esses últimos desenvolvidos por mim. 


Para a minha transmutação em Ciberpajé elaborei um ritual singular no contexto de meu universo ficcional transmídia e mágicko chamado Aurora Pós-Humana, 10 dias antes da data de meu aniversário de 40 anos – em 20 de setembro de 2011 – iniciei um processo de meditação transcendental diária que era concluído durante o crepúsculo com a realização de um desenho espontâneo que depois eu fixava por pelo menos uma hora e escrevia um texto aforístico curto que complementava a arte e transformava-o em uma das “Chaves da Transmutação em Ciberpajé”, assim foram criadas 10 chaves até o dia de meu renascimento em que me batizei de Ciberpajé. 


Na perspectiva da chamada “magia do caos”, o magista estrutura individualmente seu sistema e suas metodologias de transformação da realidade. A metodologia de geração de meu renascimento fruiu naturalmente de meus conhecimentos da tradição iniciática ocultista aliada a uma boa dose de intuição poética/artística. O número 10 representa a complementariedade, a somatória de todos os aspectos para alcançar a transcendência, representada pelo 11. Nesse caso o 11 é a busca, e o 10, os elementos que devem ser concretizados para chegarmos a esse objetivo buscado: o 11 – a integralização como ser e o salto transcendente. Repare que o ano de minha transmutação tinha final 11, e o 4 é a soma de 2011, sendo que o 4 é o número dos 4 elementos que somados com sabedoria podem fazer emergir a quintessência. Utilizar o desenho e a escrita poética/aforística como base para a estruturação das chaves foi algo natural, pois são algumas de minhas habilidades que me permitem um fluxo dinâmico entre meu self e a essência natural cósmica. O transe artístico e os estados meditativos foram essenciais para tirar o sumo universal que gerou cada uma das chaves. As chaves são como pequenas sentenças que rememoram os mandamentos bíblicos, mas nesse caso criadas por mim mesmo entendendo-me como o meu próprio deus, o único que pode realizar transformações profundas em mim mesmo. Obviamente existe uma dificuldade em integralizá-las, cada uma delas é mais dificultosa em um período específico de minha experiência de vida. Nesses 12 anos, já experimentei dificuldades em vivenciar todas elas, mas também tive o êxtase de sentir sua força e transmutação interior quando efetivamente são uteis na lida com as dificuldades da vida ordinária. A maior parte das 10 chaves segue fazendo muito sentido para mim, e tendo um impacto em minha realidade, no entanto ainda sofro com as complexidades de incorporá-las totalmente à minha existência, e devo confessar que duas delas estão passando por uma revisão. 


Nós somos o que acreditamos ser, então o impacto simbólico de transformar-me em Ciberpajé realmente revolucionou minha vida e percepção do mundo, tornei-me ainda mais sereno, selvagem e vivo – só isso já demarca a grande importância dessa ação para mim. E a minha condição de Ciberpajé envolve o caráter mutante das verdades, é literalmente uma condição mutante, pois estou apto a reavaliar todas as minhas ideias a todo instante e não sei se amanhã, ou mesmo daqui a 1 segundo, não me transformarei novamente e mudarei meu nome, estou aberto a novos renascimentos. Tudo é possível, a minha transformação é contínua e eterna como a do cosmos! 


Só depois de minha declaração de Ciberpajé eu nomeei de “aforismos” esses pensamentos curtos que já escrevia há tempos, mas diferentemente do conceito de “sentenças morais”, sentido lato de aforismos, eu crio – muitas vezes – sentenças amorais, nesse caso faço também “desaforismos”. Essa declaração significou para mim - como todo e qualquer ritual de passagem - uma maior maturidade como pensador. Como artista reflito sobre a condição humana desde muito cedo, só que a partir desse momento senti-me balizado para lançar de uma maneira mais vigorosa e corajosa esses ensinamentos que aprendi através da minha experiência ao longo da vida. Eu já escrevia esses “aforismos” na forma de poemas, ou como frases de efeito, querendo passar a minha visão de mundo e obviamente essa perspectiva permeia toda a minha arte. Algumas de minhas histórias em quadrinhos eu posso chamar de aforismos visuais, e em 2013, a pesquisadora de minha obra IV Sacerdotisa Danielle Barros juntamente comigo, elaborou o conceito do que chamamos de HQforismos (história em quadrinhos + aforismo) a partir da observação das chaves da transmutação, assim o que vocês podem fruir nas aberturas e fechamentos dos três capítulos desse livro são os chamados HQforismos, formados por um desenho complementado por um texto aforístico que conecta-se a ele. 


Os aforismos estabeleceram-se, ao longo dos anos, como minhas marcas enquanto pensador, sementes linguísticas de meu ideário imanente e transcendente. O aforismo na história da cultura está diretamente conectado ao pensamento filosófico, ideológico ou transcendente, tem forte relação com os pensadores da condição humana, com grandes mestres iniciados. Não me considero um grande mestre iniciado, estou muito distante disso, mas apodero-me desse método informacional interessante, porque ele é curto, pretende ser direto e carrega algo de poeticidade, lirismo. Com os aforismos é possível trabalhar metaforicamente, não é um discurso fechado. Ao mesmo tempo em que você pode expressar algo que seja muito claro para o leitor, pode também ser polissêmico, como em um aforismo em que digo: “O Lobo às vezes uiva para dentro (...)”, isso permite múltiplas interpretações. Em determinados momentos sou extremamente direto no que eu quero dizer, em outros dou-me o direito, paradoxalmente, de lançar mão dessa polissemia, abrir uma amplitude de interpretações. 


Para mim os aforismos nascem da necessidade de traduzir em poucas palavras uma experiência vivida. Os meus aforismos têm uma característica básica: são produtos do meu agora, da minha experiência fruindo a vida, e esse é um critério meu – eu só escrevo sobre aquilo que realmente experiencio, sou rígido nesse aspecto. Meus aforismos não são reproduções teóricas do pensamento alheio, não são citações estéreis. Obviamente muitos deles vão trazer rastros de pensadores iluminados que me influenciaram, no entanto quero deixar claro que só trato de coisas que eu realmente experienciei. Ou seja, os aforismos condensam a experiência de vida do Ciberpajé, são o sumo daquilo que acredito ter importância na minha busca por ser integral. 


O aforismo é essa sentença curta que tem uma pretensão de gerar uma reflexão sobre a vida. São expressões pretensiosas nesse sentido, porque objetivo gerar uma transformação através da reflexão induzida por sua leitura, mas veja bem, essa transformação que almejo é a de mim mesmo, sendo cada aforismo a fixação mágicka de uma verdade particular que nasce de uma vivência singular. Por isso eu dou-me o direito de ser paradoxal e contraditório, as minhas verdades são mutantes, pois repenso constantemente a minha realidade através das experiências que podem transformar-me e levar-me a revisar o que tinha sentido anteriormente para mim. É importante destacar que pensar livremente, filosofar e refletir sobre a vida a partir das próprias experiências é uma espécie de afronta no meio que circulo, a academia, pois ela teme transformar as pessoas. As ciências humanas são atos masturbatórios de reprodução infinita de pensamentos alheios, verborragia estéril quase que em sua totalidade. A busca da autotransformação é criticada na academia e vilipendiada como “autoajuda”. 


O papel da transformação interior na sociedade ocidental atual está difundido em contextos grotescos como, por exemplo, nessas religiosidades monoteísticas e binárias torpes do mundo contemporâneo, visões primitivas e infantis da deidade, na submissão a terapeutas influencers/coaches idiotas e avida dolaris, e na hipermedicação dos hiperdiagnósticos de transtornos mentais implementados pela máfia de branco e pela genocida indústria farmacêutica global, que vicia seus zumbis e suga-lhes a energia por anos até a morte – lenta e dolorosa. Infelizmente é nesses espaços dogmáticos monetaristas que as pessoas acabam tendo suas pseudo epifanias, e elas custam caro, muitas vezes 10% de seus salários. Já no âmbito da academia, que poderia transformar o mundo, isso virou uma coisa démodé, chata, de esotérico, de doidão, a academia se embotou na chatice, nos egos colossais, no rancor e no discurso empolado que é cheio de retórica, mas que não traz nada de transformador. 


Os aforismos são minhas subversões pretensiosas, buscam fundamentalmente a minha autotransformação, mas eventualmente podem fazer as pessoas refletirem sobre a vida e transformarem-se também. O objetivo primal de meus aforismos é a fixação daquelas experiências para mim mesmo, auxiliando minha autocura, mas se eu conseguir fazer uma única pessoa refletir sobre um aspecto de sua vida, repensar-se, os aforismos cumprem um outro papel, o de difusão de uma experiência fundante. 


Os meus aforismos, que a princípio eram difundidos apenas em meu perfil pessoal em rede social, ganharam uma página específica no Facebook que reúne cerca de 3 mil seguidores e foi concebida pela IV Sacerdotisa da Aurora Pós-Humana Danielle Barros, artecientista, professora da Universidade Federal do Sul da Bahia e pesquisadora de minha obra que alimentou a página e reuniu tenazmente em um arquivo coletânea todos os meus aforismos até 2021, quando eu mesmo passei a realizar tais funções. Sou imensamente grato a ela por esse meticuloso trabalho feito por 9 anos, sua admiração pelos aforismos levou-a inclusive a ser a primeira pessoa a tatuar um deles: “Eterna vida breve, provarei de todas as suas cores, pois eu sou!”. Foi ela também a primeira a pensar entusiasticamente na publicação de um livro que agora concretiza-se neste primeiro volume. O arquivo com a coletânea de aforismos já ultrapassa as 500 páginas, e a perspectiva é seguir publicando-os em outros volumes.


Em 2014, fui convidado pelo grande e saudoso amigo Enio Eustaquio Ferreira, na ocasião presidente da ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba, minha cidade natal, na qual tenho a honra de ocupar a cadeira 46 – para escrever uma coluna semanal para o Jornal do Pontal, periódico impresso na cidade e distribuído em toda a região do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro.  A coluna “Os Aforismos Do Ciberpajé Edgar Franco“ integrava a página Ponto Cultural, uma iniciativa da Fundação Cultural de Ituiutaba que durou até a extinção do jornal, sendo publicada semanalmente sem interrupções durante 146 semanas, entre os anos de 2014 e 2016. Agradeço imensamente a oportunidade aberta por Enio que chegou a confabular comigo a possível publicação de um livro reunindo os aforismos da coluna, antes de sua morte. Quem também sempre delirou entusiasticamente com meus aforismos foi meu amado e saudoso pai, Dimas Franco, meu maior incentivador, e a quem agradeço e dedico esse tomo I dos Aforismos do Ciberpajé, ele costumava trocar ideias comigo em longas conversas sobre o teor de alguns aforismos e destacava – com seu grande carinho e generosidade característica para com minhas criações - que alguns deles eram pérolas de sabedoria que seriam compreendidas e assimiladas por poucos.


Ao longo dos anos os meus aforismos foram ganhando desdobramentos transmídia. Além dos textuais, passaram a surgir HQforismos e depois os aforismos musicados no contexto do meu Projeto Musical Ciberpajé, que surgiu em 2014. Nele eu gravo aforismos específicos que recito com a minha voz e convido bandas e musicistas que estão afinados com o meu ideário a musicarem-nos, criando ambiências sonoras múltiplas para eles. Até o momento já foram lançados 42  EPs do projeto – difundidos gratuitamente na Internet -, com musicistas das 5 regiões do Brasil e de 5 países: Canadá, Inglaterra, França, República Tcheca, e Chile. Além de um CD chamado Egrégora que reuniu 23 bandas de 6 países musicando meus aforismos. A partir de músicas dos EPs já foram criados mais de 15 videoclipes, transformando suas mensagens em obras audiovisuais. Também desenvolvemos o conceito de curtaforismos, neologismo que nomeia curta metragens realizados a partir dos aforismos musicados e desenvolvidos em parceria com meus talentosos amigos Amante da Heresia e Luiz Fers. Mais recentemente eles têm também ganhado versões em animações digitais realizadas em parceria com meu criativo amigo Diogo Soares, com destaque para a série de animações pioneiras em rede neural desenvolvidas a partir do meu grimório de aforismos Os Códigos Cósmicos de Batalha do Ciberpajé, com músicas do notório produtor e musicista Alan Flexa. Minha gratidão a todos os envolvidos nessas criações transmídia que vão expandido para outros suportes, linguagens e dimensões os meus aforismos.